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A nova visão para a Zona Norte da Taipa

Revista Macau
Edição nº 111
  • Projecto do Parque da Zona Norte de Taipa, de acordo com a "Actualização do Plano de Ordenamento Urbanístico da Zona Norte da Taipa (2026)” (Foto: DSSCU)

  • Mapa da área de intervenção da “Actualização do Plano de Ordenamento Urbanístico da Zona Norte da Taipa (2026)” (Foto: DSSCU)

  • Director da Direcção dos Serviços de Solos e Construção Urbana (DSSCU), Lai Weng Leong (Foto: DSSCU)

  • A Zona Norte da Taipa continua a enfrentar um conjunto de problemas urbanísticos (Foto: Lei Heong Ieong)

  • Planta dos três conjuntos previstos no novo plano para a Zona Norte da Taipa (Foto: DSSCU)

  • Distribuição das zonas verdes e espaços públicos abertos, segundo a revisão lançada este ano (Foto: DSSCU)

  • Tabela informativa

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Durante anos, a Zona Norte da Taipa foi vista como um dos maiores desafios urbanísticos, mas o Governo pretende agora intervir de forma extensiva. A “Actualização do Plano de Ordenamento Urbanístico da Zona Norte da Taipa (2026)” revela uma mudança de prioridades: menos densidade construtiva, mais espaços públicos, maior valorização do património e uma aposta na qualidade de vida. O plano, segundo as autoridades, procura desenhar um bairro pensado para o futuro

Texto Guilherme Rego

Durante décadas, a Zona Norte da Taipa permaneceu como uma das últimas áreas por definir no mapa urbano de Macau. Situada entre a Taipa Grande e alguns dos principais eixos rodoviários da ilha, a zona abriga uma combinação rara de terrenos privados, património histórico, árvores antigas classificadas e infra-estruturas dispersas, factores que a transformaram num dos espaços mais complexos da cidade do ponto de vista do planeamento urbano.

O projecto de “Actualização do Plano de Ordenamento Urbanístico da Zona Norte da Taipa (2026)”, divulgado pelo Governo em Maio do corrente ano, procura agora redefinir o futuro desta área. Mais do que uma simples actualização técnica, a revisão do plano reflecte uma mudança de prioridades na forma como a Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) pensa o seu desenvolvimento urbano.

A actual revisão não surge do vazio. Em 2013, o Governo apresentou um projecto de ordenamento urbanístico para a zona que previa uma ocupação mais densa e uma configuração substancialmente diferente da agora divulgada. No novo documento, a Direcção dos Serviços de Solos e Construção Urbana (DSSCU) explica que a execução desse plano enfrentava dificuldades relacionadas com a reorganização fundiária, o transplante de árvores antigas e a articulação com as áreas envolventes.

Mapa da área de intervenção da “Actualização do Plano de Ordenamento Urbanístico da Zona Norte da Taipa (2026)” (Foto: DSSCU)
Mapa da área de intervenção da “Actualização do Plano de Ordenamento Urbanístico da Zona Norte da Taipa (2026)” (Foto: DSSCU)

Treze anos depois, o novo projecto parte de pressupostos distintos e procura responder a uma nova realidade urbana, optimizando o planeamento urbanístico da Zona Norte da Taipa, incluindo a área envolvente da Aldeia de Chok Ka e da Estrada do Regedor. Segundo a DSSCU, o plano de 2026 foi elaborado tendo em conta o desenvolvimento urbano, com base no Plano Director da RAEM (2020-2040) e em articulação com a implementação da “Lei de Terras” e da “Lei de Salvaguarda do Património Cultural”.

A DSSCU identifica três directrizes fundamentais no plano – um espaço de inovação e investigação integrado com a cidade, uma comunidade verde integrada na paisagem e um pólo cultural e turístico atractivo – que servem de base a cinco estratégias de desenvolvimento. De acordo com a “Actualização do Plano de Ordenamento Urbanístico da Zona Norte da Taipa (2026)”, essas cinco estratégias incluem: estabelecer um quadro de desenvolvimento espacial coordenado com as zonas adjacentes; incentivar o desenvolvimento integrado das indústrias inovadoras e da comunidade; aperfeiçoar as instalações complementares gerais destinadas aos diversos grupos sociais; melhorar a mobilidade ecológica e a experiência de deslocação através de diferentes meios; e criar uma rede de espaços públicos abertos que integre o turismo cultural.

À Revista Macau, o director da DSSCU, Lai Weng Leong, explica que a revisão pretende, em traços gerais, “promover o aproveitamento dos terrenos disponíveis e o desenvolvimento geral da comunidade, reforçar a protecção das árvores antigas, melhorar a rede viária e optimizar os equipamentos públicos”.

Director da Direcção dos Serviços de Solos e Construção Urbana (DSSCU), Lai Weng Leong (Foto: DSSCU)
Director da Direcção dos Serviços de Solos e Construção Urbana (DSSCU), Lai Weng Leong (Foto: DSSCU)

Em termos gerais, o responsável destaca três princípios. Primeiro, a promoção do desenvolvimento coordenado entre as zonas antiga e nova da Taipa, visando desenvolver um “bairro residencial e comercial sustentável, integrado na paisagem verde e capaz de congregar múltiplos estilos de vida e actividades económicas”.

Em segundo lugar, a necessidade de garantir o “equilíbrio entre conservação ecológica e construção urbana”, estabelecendo claramente o compromisso da conservação no local de 23 árvores antigas classificadas.

Por fim, em terceiro lugar, surge o reforço da operacionalidade do planeamento urbano e da viabilidade do desenvolvimento dos terrenos. Este princípio, refere o director da DSSCU, “pretende reforçar a previsibilidade na implementação técnica do plano, promover o aproveitamento dos terrenos e aumentar a operacionalidade do planeamento dos espaços urbanos, impulsionando assim os incentivos e dinâmicas globais em prol do crescimento da comunidade”.

Simplificação e viabilidade

Por outro lado, o plano de 2026 não procura resolver a questão fundiária através de grandes operações de consolidação ou permuta de terrenos, como acontecia em 2013. Em vez disso, procura adaptar-se à realidade existente e criar condições para que os diferentes lotes possam ser desenvolvidos de forma mais autónoma e faseada.

Lai Weng Leong diz que o “plano pretende impulsionar o desenvolvimento urbanístico da Zona Norte da Taipa e equilibrar o interesse público e os direitos de desenvolvimento privado”. E adianta: “Durante as fases de estudo e elaboração deste plano, foram convidados vários sectores competentes de diferentes serviços para participar. Ao longo do processo, houve uma coordenação conjunta e optimização progressiva do plano, de forma a garantir que este se adapte melhor aos trabalhos de implementação e acompanhamento subsequentes.”

A Zona Norte da Taipa continua a enfrentar um conjunto de problemas urbanísticos (Foto: Lei Heong Ieong)
A Zona Norte da Taipa continua a enfrentar um conjunto de problemas urbanísticos (Foto: Lei Heong Ieong)

O director da DSSCU refere que o Governo da RAEM está agora a elaborar de forma ordenada os planos de pormenor para a zona. “No futuro, continuará a ser aperfeiçoado globalmente o ambiente espacial urbano com base na elaboração dos planos de pormenor e nas opiniões recolhidas junto dos serviços competentes e de todos os sectores da sociedade, promovendo um desenvolvimento integrado e ordenado da cidade”, afirma.

Lai Weng Leong diz também que “não está prevista a aquisição directa de terrenos pelo Governo”, podendo estes ser desenvolvidos de forma independente. Em alguns casos, acrescenta, “poderá ser necessária a cedência de pequenas parcelas ao domínio público ou a atribuição de pequenas parcelas de terreno do Estado para regularização urbanística, abertura de vias ou criação de espaços verdes”. Em todo o caso, salienta, “a implementação seguirá as disposições da ‘Lei de Terras’”.

Mais espaços públicos

A mudança de abordagem é visível nos números. Enquanto o plano de 2013 previa uma população de cerca de 36.500 habitantes distribuída por 71 lotes, o actual projecto de revisão reduz esta previsão para aproximadamente 20 mil residentes e o número de lotes para 54. A área bruta de construção acima do solo passa de cerca de 1,26 milhões para 1,05 milhões de metros quadrados.

Em contrapartida, a área verde e de espaços públicos por habitante será cerca de 2,2 vezes superior à prevista anteriormente, enquanto a área destinada a equipamentos públicos por residente aumenta aproximadamente 1,7 vezes, segundo o documento apresentado em Maio.

De acordo com os dados indicados no documento, e excluindo a parte destinada a diversas infra-estruturas, a habitação continuará a ocupar a maior parcela da área bruta de construção, representando cerca de 29,1 por cento do total previsto. Seguem-se as zonas verdes e espaços públicos abertos, representando 24,7 por cento, os usos comerciais, com aproximadamente 6,5 por cento, e os equipamentos de utilização colectiva, também com cerca de 6,5 por cento.

Tabela informativa
Tabela informativa

Segundo Lai Weng Leong, “alguns equipamentos públicos serão integrados noutros equipamentos ou instalados nos pódios dos edifícios, facilitando o acesso da população aos serviços públicos”. Além disso, adianta, “determinados terrenos públicos reservados para equipamentos poderão, se necessário, ser afectados a usos alternativos previamente definidos em consonância com as reais necessidades da comunidade, preservando a flexibilidade do desenvolvimento urbano futuro”.

Três conjuntos funcionais

Mais do que criar uma nova urbanização, o documento da DSSCU procura construir um bairro. Para isso, a área foi organizada em três conjuntos complementares: um conjunto de investigação e inovação a norte; um conjunto cultural e turístico na zona central, estruturado em torno das árvores antigas e do património existente; e um conjunto de serviços comunitários a sul, vocacionado para equipamentos públicos e serviços de apoio à população.

Lai Weng Leong refere que o planeamento pretende “integrar habitação, inovação tecnológica, cultura, turismo e serviços comunitários”, contribuindo para a criação de um “bairro dinâmico” – conceito destacado no documento –, onde os residentes possam encontrar uma parte significativa das actividades do quotidiano.

Esta organização funcional está também alinhada com a estratégia de diversificação económica “1+4” definida pelo Governo da RAEM, explana o documento, articulando-se com o desenvolvimento económico das áreas envolventes.

Planta dos três conjuntos previstos no novo plano para a Zona Norte da Taipa (Foto: DSSCU)
Planta dos três conjuntos previstos no novo plano para a Zona Norte da Taipa (Foto: DSSCU)

Os diferentes conjuntos, acrescenta Lai Weng Leong, poderão “complementar-se mutuamente” e desenvolver-se de forma faseada, acompanhando as necessidades futuras da cidade.

“As prioridades passam pela melhoria das infra-estruturas básicas, designadamente drenagem e rede viária, e pela articulação gradual dos projectos privados com os corredores aéreos e sistemas pedonais”, refere o director da DSSCU. “Antes da plena concretização do conjunto de investigação e inovação a norte, poderão ser introduzidos de forma flexível equipamentos de investigação e inovação, criação comunitária ou infra-estruturas culturais e recreativas nos pódios dos edifícios residenciais e comerciais da zona sul ou central, de modo a alcançar a complementaridade funcional”, acrescenta.

Distribuição das zonas verdes e espaços públicos abertos, segundo a revisão lançada este ano (Foto: DSSCU)
Distribuição das zonas verdes e espaços públicos abertos, segundo a revisão lançada este ano (Foto: DSSCU)

“As futuras obras viárias e os projectos de desenvolvimento deverão respeitar as áreas de protecção e os corredores visuais estabelecidos”, remata Lai Weng Leong.


Um plano para as próximas gerações

Ao contrário de vários projectos urbanos desenvolvidos em áreas já totalmente consolidadas, a Zona Norte da Taipa oferece uma oportunidade rara: planear um novo bairro antes de a urbanização estar concluída. Essa realidade permite definir desde o início a estrutura das ruas, a localização dos equipamentos públicos, os corredores verdes e a organização dos diferentes usos do solo.

Segundo o director DSSCU, essa é precisamente uma das principais diferenças entre planear uma área ainda pouco urbanizada e requalificar uma zona já construída.

“O planeamento de áreas não urbanizadas oferece maior liberdade de intervenção, permitindo organizar os terrenos, definir desde a origem a estrutura espacial urbana, a rede viária e os corredores paisagísticos mais adequados”, afirma Lai Weng Leong. “Adicionalmente, é possível prever a população com base na capacidade construtiva prevista e reservar atempadamente terrenos suficientes para diversos equipamentos públicos, tais como escolas, centros de saúde e parques de grande dimensão”, refere.

Em sentido contrário, a requalificação de zonas urbanas consolidadas “está condicionada pelos edifícios existentes, pelas ruas históricas e pelos direitos de propriedade, reduzindo a flexibilidade das intervenções”, realça o mesmo responsável.

Apesar dessa vantagem, a concretização da nova Zona Norte da Taipa será necessariamente gradual. “Não existe actualmente um calendário global para a concretização integral do plano”, frisa Lai Weng Leong.

E acrescenta: “O mais importante é reforçar a previsibilidade e a viabilidade do desenvolvimento dos terrenos, aumentar a operacionalidade do planeamento urbano e criar condições para impulsionar a dinâmica de desenvolvimento da comunidade.”

O Governo continuará, adianta o director da DSSCU, a desenvolver os planos de pormenor e a coordenar o trabalho entre os vários serviços públicos, ajustando a implementação às necessidades da cidade e promovendo um desenvolvimento integrado.


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