Texto Nelson Moura
A construção da Zona Internacional de Turismo e Cultura Integrados de Macau é vista de forma positiva por especialistas contactados pela Revista Macau, tendo em conta que visa criar espaços de elevada qualidade, caracterizados pela riqueza cultural e por uma atmosfera contemporânea.
O arquitecto Mário Duque refere que o plano representa um “projecto estrutural” que visa criar um “novo marco cultural para a cidade, reforçando a articulação entre turismo, património, criatividade e desenvolvimento urbano”. O plano, afirma, assenta numa visão de plataforma internacional de intercâmbio sino-ocidental, capaz de consolidar Macau como um centro cultural internacional de excelência.
O arquitecto destaca ainda a configuração territorial do projecto, que combina o terreno marginal a leste da Torre de Macau com a Zona C dos Novos Aterros. “Cada infra-estrutura tem funções nucleares e complementares próprias, mas articuladas num ecossistema coerente de museologia, artes performativas e arte contemporânea”, sublinha. Mário Duque considera, contudo, que o sucesso dependerá da capacidade de Macau de inovar face às cidades vizinhas da Grande Baía Guangdong-Hong Kong Macau. “É fundamental que isto não resulte em mais do mesmo. O que vier a realizar-se deve ser verdadeiramente notável.”
Para Terence Lee, co-fundador da organização sem fins lucrativos Sustaincia.org, o novo projecto será sustentável se tiver como prioridade os residentes de Macau. “É essencial equilibrar a utilização dos espaços por turistas e residentes. A multiutilização pode aumentar o envolvimento da população com a cidade”, argumenta.
Terence Lee, associado ao Laboratório de Investigação para a Sustentabilidade Cultural na Universidade de São José, acredita que a inovação relacionada com a Zona Cultural deve ser aberta e inclusiva. “Novas ideias podem surgir de qualquer pessoa interessada, mesmo de estudantes sem experiência. Trata-se de pensar fora da caixa e de obter percepções físicas a partir da observação directa no terreno”, afirma.
O especialista defende o que chama de experimentação progressiva. “As ideias precisam de ser testadas em pequena escala e sem grandes orçamentos”, antes de se decidir avançar com o conceito, defende. No entanto, alerta que “não está claro se a gestão destes locais aceitará propostas que não venham do Governo”. Nesse sentido, Terence Lee propõe uma alternativa: concursos anuais para a gestão de cada espaço, cujos vencedores trabalhariam com os vários complexos e agentes turísticos da cidade, numa base que contaria com o apoio e orientação governamental.
Expandir as fontes de turistas
Do ponto de vista económico, a docente Penny Wan, da Universidade de Turismo de Macau, vê no projecto uma oportunidade decisiva para reduzir a dependência do sector do jogo. “A zona está alinhada com a estratégia de Macau para diversificar os seus produtos turísticos e reforçar a sua posição como centro mundial de turismo e lazer”, afirma a académica.
Penny Wan acredita que o novo corredor cultural pode atrair um leque mais vasto de visitantes – incluindo de mercados internacionais e famílias – e gerar benefícios em cadeia para hotelaria, retalho, restauração e indústrias criativas da cidade. “Estas zonas irão também criar mais postos de trabalho nas áreas da construção, hotelaria, gestão cultural e serviços turísticos.”
No plano social, a académica considera que um maior acesso a espaços culturais e educativos pode transformar a relação dos residentes com a cidade. “A vida cultural será potenciada e a revitalização das áreas ribeirinhas pode melhorar o espaço público, os transportes e o ambiente urbano”, adianta. Já a nível cultural, destaca a força simbólica dos três espaços que compõem o projecto. “Estes marcos irão melhorar as infra-estruturas culturais de Macau, promover o intercâmbio artístico e criar espaços para educação e inovação”, afirma. “Podem tornar a cidade mais única e interessante, distinguindo-a das restantes cidades da região.”
Apesar do entusiasmo, Penny Wan identifica também riscos que devem ser criteriosamente geridos. O primeiro prende-se com o trânsito e a circulação das pessoas. “O aumento de visitantes pode sobrecarregar as infra-estruturas de transportes. Macau é um lugar pequeno e congestionado, portanto, é essencial planear adequadamente os acessos e o transporte para entrar e sair destas zonas”, alerta.
Outro risco tem que ver com a mercantilização da identidade cultural. “Os operadores devem perceber que os recursos patrimoniais precisam de apresentar a sua autenticidade. A mercantilização pode atrair turistas, mas não deve sacrificar a identidade e o significado.”
A académica lembra ainda que projectos desta dimensão acarretam impactos ambientais significativos. “É indispensável realizar avaliações de impacto social, patrimonial e ambiental”, sublinha.
Penny Wan refere também a importância de envolver criadores e artistas da cidade no desenvolvimento deste projecto. “É vital haver espaços e quotas suficientes para que os talentos locais possam exibir o seu trabalho e expressar a cultura local.”
As Linhas de Acção Governativa para 2026, apresentadas pelo Chefe do Executivo, Sam Hou Fai, em Novembro, confirmam que o projecto entrará este ano numa nova fase de coordenação institucional. No último trimestre de 2026, será criado um grupo de trabalho interdepartamental responsável por harmonizar e planear o desenvolvimento global da Zona Cultural.
Para os especialistas, a dimensão do projecto exige visão estratégica e abertura ao envolvimento público. Como sintetiza Terence Lee, “Macau só beneficia se estes espaços forem vivos, acessíveis e verdadeiramente participados”.
Já Penny Wan reforça que a autenticidade cultural será a chave da diferenciação de Macau, enquanto Mário Duque refere que a RAEM “deve olhar para o que as cidades vizinhas da Grande Baía estão a fazer, mas com a ambição de criar algo que só Macau pode oferecer”.