Liceu Nacional de Macau (Foto: Direcção dos Serviços de Turismo)
Igreja de Santo António (Foto: Direcção dos Serviços de Turismo)
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Bancária, empresária, funcionária consular, dirigente associativa, mas, acima de tudo, filha dilecta e orgulhosa de uma terra há muito em transformação. Ao longo da vida, Sónia Palmer desempenhou um sem-fim de funções e enfrentou ainda mais desafios, mas nunca perdeu de vista o que mais importa. Co-fundadora do grupo Dóci Papiaçám di Macau e guardiã do tesouro de sabores macaenses, continua a contribuir para que a essência de Macau se mantenha viva
Texto Marco Carvalho
A boa filha a casa torna, uma e outra vez. No bairro onde cresceu, as vozes do passado há muito que se calaram, os cheiros de outrora dissiparam-se na névoa do tempo e o espanto da primeira infância transformou-se em resignação, mas Sónia Teresinha de Jesus Palmer não vive apegada ao passado. Pelo menos, não no sentido prosaico e implacável do termo, o de batalhar por algo irrecuperável contra a inabalável tirania do tempo.
Os anos que passou em Hong Kong – onde trabalhou primeiro como bancária e depois como funcionária consular – e em Inglaterra fomentaram uma apreciação renovada e mais profunda pela cidade onde nasceu, mas também uma percepção mais apurada das causas pelas quais vale a pena lutar. A mais relevante de todas elas? A consolidação da identidade macaense, seja pela reabilitação paulatina do patuá, seja pela salvaguarda e pela disseminação da tradição gastronómica macaense de que a mãe, Aida de Jesus, foi durante décadas a fio a mais fiel depositária.
Mapa
1. O BAIRRO DAS GRATAS RECORDAÇÕES
De um lado, o Cemitério de São Miguel, austero e sereno, vidas eternizadas no mármore e na melancolia. Do outro lado, a sólida imponência das paredes do antigo Liceu, onde se forjaram vidas e alimentaram sonhos. A Rua do Tap Siac separava outrora – e, ao mesmo tempo, unia – os reinos da vida e da morte. Foi ali, entre o antigo Liceu e o campo-santo, que Sónia Palmer viveu os anos mais gratos da infância e da juventude, dias despreocupados, caracterizados pelo companheirismo e pela boa-vizinhança.
“A Rua do Tap Siac foi onde passei a minha juventude. Grande parte das pessoas que moravam naquela zona eram macaenses. Na época, não havia tantos divertimentos. Juntávamo-nos na rua, jogávamos à bola, andávamos de bicicleta”, recorda. “As casas onde vivíamos eram casas de dois andares. E, por serem casas de dois andares, quem lá morava comunicava com mais facilidade. Quando já éramos um pouco mais crescidos, passávamos horas a conversar à porta de casa. Ali, quase não passavam carros. Aliás, naquela altura, quase podíamos contar pelos dedos das duas mãos quantos carros Macau tinha”, acrescenta.
Na Rua do Tap Siac, a vida e a morte não são opostas, são vizinhas. De um lado da rua, a quietude da morte que um dia virá. Do outro, a efervescência da juventude que um dia foi, as esperanças moldadas nos bancos da escola, as memórias talhadas no empedrado das ruas.
“Estudei no Liceu, que ficava mesmo à frente, na rua em frente à minha. É um dos sítios dos quais tenho melhores memórias da minha juventude. Um dos meus professores foi o Dr. Henrique de Senna Fernandes”, conta Sónia Palmer. “No Ano Novo, íamos com as lanternas dar uma volta e os rapazes, como eram malandros, andavam com fisgas e tentavam partir as lanternas. Nós corríamos atrás deles. Enfim, eram coisas de garotos, mas coisas que me dizem muito porque foi ali que cresci”, reitera.
Liceu Nacional de Macau (Foto: Direcção dos Serviços de Turismo)
2. O BERÇO ESPIRITUAL
Entre o coração da cidade velha e o sopro da cidade nova que se espraia com inegável voragem para além de Mong-Há, rumo às chácaras da Areia Preta, os bairros de São Lázaro e do Tap Seac são, na primeira metade do século XX, mundos que pouco ou nunca se tocam. Outrora consagrada a Nossa Senhora da Esperança, a ermida de São Lázaro erguia-se a um fôlego de distância, ao fundo da exígua Rua do Volong, mas é do outro lado da colina, na ríspida solidez da Igreja de Santo António, que os clãs macaenses do Tap Seac têm o seu berço espiritual.
A família de Sónia Palmer não é excepção: “Íamos muito à Igreja de Santo António. Não sei muito bem por que razão, mas não frequentávamos a Igreja de São Lázaro. Já não me recordo se havia ou não missa em português em São Lázaro, mas, de qualquer forma, a maior parte das pessoas do Tap Seac tinha uma ligação muito forte à Igreja de Santo António”, esclarece.
Erguida em meados do século XVI e alvo de várias intervenções de vulto, a ermida consagrada ao taumaturgo português esteve, durante séculos, no epicentro da espiritualidade macaense. Era ali que os “filhos da terra” se casavam, baptizavam a prole e renovavam as raízes, em cerimónias que, aos olhos da comunidade chinesa, se revestiam de um esplendor insuperável e que explicam o nome pela qual é ainda hoje conhecida: Fa Vong Tong, a Igreja das Flores.
“Foi na Igreja de Santo António que fiz a minha primeira comunhão. Depois, juntei-me ao coro. Cantava um bocadinho”, recorda Sónia Palmer. “A minha mãe ia todas as terças-feiras à Igreja de Santo António acender uma vela e rezar. Mesmo centenária, era um hábito que mantinha. Sem falta”, acrescenta.
Igreja de Santo António (Foto: Direcção dos Serviços de Turismo)
3. O PALCO DE TODAS AS POSSIBILIDADES
Com a mãe – falecida em 2021 aos 105 anos –, Sónia Palmer aprendeu a valorizar aqueles que são, actualmente, os principais pilares da identidade e da memória colectiva da comunidade macaense, a língua e a gastronomia.
Nos despreocupados anos da infância, o patuá emergia pontualmente como uma presença estranha, quase encantatória no quotidiano familiar.
Aida, uma das últimas falantes fluentes da “doce língua de Macau”, comunicava com a mãe em patuá e a circunstância deixou inegáveis marcas: “A minha mãe falava patuá com a minha avó. O meu pai não falava e, como na escola estudávamos português, em casa falávamos português. Só ouvia o patuá quando a minha mãe conversava com a minha avó”, revela Sónia Palmer.
A transmissão íntima do dialecto deu a Sónia Palmer a consciência de que o frágil idioma era parte do legado cultural macaense e necessitava de ser defendido. Em 1993, a morte extemporânea de Adé dos Santos Ferreira deixou a comunidade numa encruzilhada e é numa homenagem ao derradeiro grande cultor do dialecto que nasce o grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau, tarefa na qual Palmer teve um papel instrumental.
“Fui – a par da Julie de Senna Fernandes, da Cecília Jorge e de mais algumas pessoas – uma das fundadoras do grupo. Fui uma das fundadoras, mas quando o grupo foi criado praticamente não falava nada. Ia perguntando à minha mãe uma ou outra palavra, uma ou outra expressão em patuá. Foi assim que fui recordando algumas coisas e aprendendo outras”, conta. “A primeira peça subiu ao palco no Teatro Dom Pedro V, por ocasião da reinauguração do teatro, que foi alvo de uma remodelação de fundo. O então Presidente da República de Portugal, Mário Soares, estava na assistência”, acrescenta.
O ambiente íntimo da sala favoreceu as primeiras récitas, com a comunidade macaense a aderir em peso, a esgotar lotações e a exigir novas sessões. Embora as récitas tenham migrado para auditórios maiores, no Centro Cultural de Macau, foi no Teatro Dom Pedro V que o patuá, língua há muito condenada à morte, se agarrou à vida.
4. A QUE SABE A MEMÓRIA?
Em meados da década de 1990, o patuá deixou de ser um rumor distante para se tornar, pelo menos durante um longo e festivo fim-de-semana, uma realidade viva e vibrante, a comunidade unida, dentro e fora dos limites do palco. O pioneirismo de Sónia Palmer é, porém, mais antigo. Os anos 1980 iam a meio quando o marido, o sino-britânico Fred Palmer, é confrontado com o convite, irrecusável, para abrir a sucursal de um conhecido banco em Macau. De Hong Kong, onde viveu e trabalhou durante mais de uma década, Sónia Palmer importou um rasgo de modernidade. Foi pela sua mão que abriu portas, na Avenida Sidónio Pais, o primeiro supermercado da cidade.
Mais do que um mero centro de comércio a retalho, o espaço era um verdadeiro ponto de encontro da comunidade: na cave, o supermercado; um andar acima, o primeiro restaurante de Macau, gerido por Aida de Jesus, a tentar distanciar a gastronomia macaense da confidencialidade do lar e a procurar transformá-la em algo mais. Se a superfície comercial há muito desapareceu, o Riquexó – e agora também o Cozinha Aida – mantêm-se como monumentos vivos ao engenho culinário das cozinheiras macaenses.
“O Riquexó alcançou um grande sucesso. A partir de determinada altura, tanto o restaurante como a minha mãe começaram a ficar muito conhecidos. Quando a minha mãe faleceu, eu e os meus irmãos decidimos vender o restaurante. Já estávamos com uma certa idade e um restaurante dá muito trabalho e muitas dores de cabeça”, explica. “Vendemos o Riquexó, mas acabámos por ficar um pouco arrependidos quando nos apercebemos de algumas das mudanças que foram feitas. Creio que essa terá sido a razão que levou o meu irmão a abrir, mesmo ao lado, o Cozinha Aida. Acho que ele sempre sentiu que tinha a obrigação de dar continuidade ao legado da minha mãe”, adianta.
Na tranquilidade do lar, Sónia Palmer cumpre a sua parte. O legado materno transforma-se, pela sua mão, em poesia degustável, cada prato um pequeno gesto de amor que preserva o fogo da tradição contra o vento do tempo e a sombra omnipresente do esquecimento. “Faço muita comida macaense em casa. E gostava que outros também a pudessem confeccionar. Sou uma pessoa que, se me pedem as receitas, eu partilho. Não sou egoísta, não quero guardar. O que quero é que a comida macaense continue”, remata.