João Maria Pegado, um dos sócios do restaurante Vivo, em Hengqin
O restaurante Vivo fica localizado no centro comercial Huafa, não muito longe do posto fronteiriço de Hengqin
O estabelecimento serve gastronomia portuguesa, espanhola e italiana
The Youtube video is unavailable
Quando se pensa em restaurantes de comida mediterrânica na China, é costume assumir-se que se localizam em Macau ou, eventualmente, em Hong Kong. Contudo, desde meados do ano passado, Hengqin acolhe um estabelecimento que leva os clientes a viajarem pelos sabores de Portugal, Espanha e Itália. Um projecto de seu nome “Vivo”, com ligações à RAEM e que surgiu fruto do acaso
Texto Margarida Vidinha Fotografia Cheong Kam Ka
Ano de 1996 e o Aeroporto Internacional de Macau foi inaugurado há meses. João Maria Pegado, com então apenas 14 anos, começou a chamar “casa” à cidade por essa altura. Desde pequeno sabia que queria seguir uma carreira profissional ligada ao desporto ou à hotelaria. As duas acabaram por se entrelaçar, com destaque para os tempos em que foi treinador da equipa principal do Sporting Clube de Macau. Contudo, nunca tinha pensado em abrir um restaurante. “Às vezes, não sabemos como é que estas coisas correm – neste momento, estou a gostar bastante desta nova aventura”, confessa, numa referência ao restaurante Vivo, em Hengqin, do qual é um dos sócios.
Foi durante os anos da pandemia da COVID-19 que as estrelas se começaram a alinhar. É nessa época que decide pegar nas malas e rumar para Hengqin, juntamente com a família. Já tinha tido um apartamento em Zhuhai, mas decide apostar na ilha vizinha, em fase de expansão.
Depois de adquirir gosto pelo novo lar, onde afirma poder encontrar “bastantes espaços verdes, várias esplanadas e outras coisas boas” da vida, viu “uma oportunidade de investimento” na área da restauração. A ideia inicial passava por abrir “uma rulote só com bifanas”, mas, depois de conversar “com várias pessoas que conhecem a área”, surgiu um novo plano: um restaurante de serviço completo.
Quem mora por aquela zona conhece bem o conceito da Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin – desde as áreas de investimento prioritárias aos planos de circulação facilitada entre os dois lados. Tirando partido disso, o processo de aprovação das licenças e outros documentos necessários para a abertura do Vivo desenrolou-se de forma rápida, recorda João Maria Pegado. O procedimento “foi bastante acelerado” pelo apoio fornecido pelo Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), que “ajudou bastante durante o processo de legalização da empresa”, acrescenta.
O restaurante Vivo fica localizado no centro comercial Huafa, não muito longe do posto fronteiriço de Hengqin
O facto de as autoridades incentivarem o investimento na Zona de Cooperação facilitou a execução do projecto e isso foi também uma das razões para o estabelecimento nascer “do lado de lá” da Ponte Flor de Lótus. “O Governo de Macau tem-nos incentivado bastante a termos este projecto aqui”, incluindo através da atribuição de apoios financeiros, conta o empresário. Existe “uma grande ajuda” das autoridades tanto da RAEM como do Interior da China “para atrair investidores” para Hengqin, garante João Maria Pegado.
Do boca a boca até à água na boca
Se o nome “Vivo” pode dar azo a várias interpretações mais ou menos metafísicas, a razão para a sua escolha foi sobretudo pragmática. Além de ser uma palavra que espelha o ambiente que se pretende para o restaurante, encaixa bem nas três línguas da culinária que é servida: o português, o espanhol e o italiano. “Conseguimos dizer ‘Vivo’ nestas três línguas e é uma palavra que também é fácil de dizer para o falante de chinês. Não podia ser nada de complicado e não podia ter os ‘erres’ do português”, explica o empresário.
O restaurante começou a funcionar em regime de fase experimental em Julho passado. Abriu as portas oficialmente ao público três meses depois.
João Maria Pegado conta que os primeiros três meses de testes foram “bastante desafiantes”, porque o Vivo estava a dar-se a conhecer aos consumidores locais sem recurso a grande publicidade. Tudo foi fruto do “boca a boca, do passa-palavra”. Contudo, foi possível “ter as mesas cheias e uma recepção e aceitação muito boas”, afirma.
Quando foram oficialmente abertas as portas, o número de clientes deu um salto abissal. “A rede aumentou e temos recebido clientes de Hong Kong, Macau e de outras partes da China.”
É de Hong Kong que chega a maioria dos comensais, que saem com feedback positivo. “Dizem que a comida é espantosa”, orgulha-se João Maria Pegado.
No entanto, não se criam restaurantes de sucesso sem grandes funcionários no serviço. Para lá de João Maria Pegado, o resto da equipa é de origem chinesa, evitando à gerência processos burocráticos de importação de mão-de-obra do exterior. “Tal como trabalhamos com ingredientes chineses na confecção dos nossos pratos, também trabalhamos com pessoal local na nossa cozinha”, diz o empresário, acrescentando que a opção facilita a comunicação entre a equipa.
Mediterrâneo em Hengqin
Sendo um espaço dedicado à culinária mediterrânica, o Vivo oferece uma panóplia de sabores portugueses, espanhóis e italianos. Da cozinha lusa, são vários os destaques: desde o bitoque ao prego e à bifana, passando pelas amêijoas, tudo o que é prato português é prato com sabor a casa.
Contudo, dois dos grandes representantes da gastronomia lusitana não estão – com pena para João Maria Pegado – presentes no menu. “Ainda não encontrámos um fornecedor que nos satisfaça” no que toca ao polvo fresco, lamenta. “O bacalhau é outro [produto] que não se encontra aqui”, acrescenta.
O estabelecimento serve gastronomia portuguesa, espanhola e italiana
A representar Espanha, estão, por exemplo, os croquetes de fiambre e queijo (conhecidos como “croquetas con jamón y queso”), gambas com alho (“gambas con ajillo”) e um dos pedidos mais recorrentes: a paella negra. “É, basicamente, arroz com tinta de lula, mais a lula grelhada por cima do arroz, que dá um aspecto visual muito engraçado”, explica o empresário. Já de Itália, constam no menu as massas e os risotos.
A tudo isto há a somar os pratos vindos da grelha. Das espetadas à garoupa, João Maria Pegado revela que os grelhados são muito populares.
O Vivo promete oferecer o melhor do que é mediterrânico, com a melhor qualidade, partindo de produtos frescos chineses. Para a viagem gastronómica ao sul da Europa, basta dar um pulo a Hengqin, ao centro comercial Huafa, não muito longe do posto fronteiriço com Macau. “Estamos bem localizados: a nossa vista dá para os Jardins do Oceano”, na Taipa, diz João Maria Pegado.