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Saúde em Hengqin, cuidados “à Macau”

Revista Macau
Edição nº 108
  • O Posto de Saúde do Novo Bairro de Macau em Hengqin toma como referência o modelo de funcionamento dos centros de saúde na RAEM (Foto: Serviços de Saúde)

  • Na unidade, a sinalética também está disponível em português, como nos centros de saúde em Macau (Foto: Ng Yuk Lin)

  • O posto de saúde conta com 13 trabalhadores (Foto: Ng Yuk Lin)

  • Filial de Hengqin do Hospital Afiliado n.º 1 da Universidade de Medicina de Guangzhou (Foto: Ng Yuk Lin)

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O Posto de Saúde do Novo Bairro de Macau, em Hengqin, tornou-se um dos símbolos da integração entre os dois lados, ao disponibilizar, desde 2024, cuidados primários gratuitos a portadores de BIR da RAEM que vivam, estudem ou trabalhem na ilha vizinha. A replicação, na Zona de Cooperação, do modelo adoptado pelos centros de saúde em Macau reforça o objectivo de garantir continuidade na assistência a uma comunidade em expansão

Texto Viviana Chan

Desde que entrou em funcionamento, em Novembro de 2024, na Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin, o Posto de Saúde do Novo Bairro de Macau já realizou cerca de 6500 atendimentos gratuitos a portadores de Bilhete de Identidade de Residente (BIR) da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM). Trata-se da primeira instituição médica criada pelo Governo da RAEM no Interior da China cujo funcionamento e gestão são directamente assegurados pelos Serviços de Saúde de Macau.

Com uma área de 1000 metros quadrados, a unidade toma como referência o modelo de funcionamento dos centros de saúde em Macau. Destina-se aos titulares de BIR da RAEM que estão a viver, trabalhar ou estudar em Hengqin e oferece serviços de medicina ocidental, incluindo consultas de clínica geral, cuidados de saúde para adultos, mulheres e crianças, bem como consultas externas sem marcação.

Segundo o responsável pelo posto, o médico Wong Chi Peng, especialista em medicina familiar, a criação de um regime de exercício profissional para médicos e enfermeiros de Macau a trabalhar em Hengqin, aliada a progressos nos mecanismos de acesso a medicamentos, exames e referenciação, veio criar as bases para que a estrutura pudesse oferecer na Zona de Cooperação “um nível de cuidados de saúde alinhado com o de Macau”.

O médico – que anteriormente desempenhou funções de director do Centro de Saúde de Nossa Senhora do Carmo-Lago, na Taipa – recorda que o Posto de Saúde do Novo Bairro de Macau despertou atenção pública desde que tiveram início as obras e surgiu a respectiva sinalética. A cobertura da imprensa, tanto da RAEM como do Interior da China, contribuiu para que a população soubesse rapidamente do nascimento da nova unidade de cuidados primários, refere o responsável.

Com a divulgação das funções, horário e público-alvo, através dos meios de comunicação e de vários canais, os Serviços de Saúde ajudaram a esclarecer o posicionamento do posto. A unidade serve a Zona de Cooperação, que, na prática, se sobrepõe a toda a ilha de Hengqin, excepto o campus da Universidade de Macau, sob jurisdição da RAEM.

Os primeiros utentes da estrutura demonstraram satisfação com os cuidados prestados e passaram a recomendar os seus serviços, impulsionando a procura. “Essa dinâmica fez com que o número de utilizadores continuasse a aumentar”, diz o médico Wong Chi Peng. Actualmente, o volume diário de consultas mantém-se estável, crescendo à medida que aumenta a taxa de ocupação do Novo Bairro de Macau, explica.

Dados oficiais indicam que, entre Novembro de 2024 e o final de Novembro de 2025, o posto registou cerca de 6500 atendimentos, maioritariamente consultas sem marcação – um total de 5381 – e serviços de saúde para adultos e crianças (713). Para o responsável pela unidade, oferecer uma estrutura com o mesmo modelo e regime de gratuitidade dos centros de saúde existentes em Macau ajuda os portadores de BIR da RAEM recém-instalados na Zona de Cooperação a adaptarem-se mais facilmente ao quotidiano em Hengqin.

Cuidados equiparados aos de Macau

Ao abrigo das regras actuais, o posto atende portadores de BIR da RAEM que possuam também documentação de residência, trabalho ou estudo em Hengqin. Wong Chi Peng explica que esse “requisito fundamental” garante que os recursos da unidade se destinam a quem é da RAEM. Para já, habitantes de Zhuhai sem ligação documental a Macau não são elegíveis para utilizar a estrutura.

No que respeita à política de cobrança, o posto replica o funcionamento dos centros de saúde na RAEM: não há custos para o utente quanto às consultas ou medicamentos. “O serviço é gratuito, exactamente como em Macau”, sublinha Wong Chi Peng. O processo é simples: o utente apresenta os documentos de identificação, faz o registo e, após a consulta, recebe de imediato os fármacos prescritos, através da farmácia existente no posto.

A unidade utiliza o sistema de informação clínica dos Serviços de Saúde da RAEM, estando ligada a Macau através de uma rede exclusiva de linhas de telecomunicação, no sentido de garantir a segurança da transmissão de dados. Todas as informações dos processos clínicos são guardadas em Macau, em servidores dos Serviços de Saúde – a sua partilha pode ser realizada através da Plataforma de Registo de Saúde Electrónico da RAEM.

Na primeira consulta, a equipa do posto valida a identidade do utente e cria no sistema o respectivo processo individual. Se o indivíduo tiver histórico clínico em Macau, o acompanhamento pode ser transferido para Hengqin, “sem necessidade de regressar à RAEM para cuidados de rotina”, excepto no que toca a serviços ainda não disponíveis no posto, explica Wong Chi Peng.

Os dados recolhidos ao longo do primeiro ano de funcionamento da unidade revelam uma distribuição etária diversificada, com maior presença dos grupos de idade entre os zero e os nove anos, entre os 30 e os 39 anos e entre os 60 e os 64 anos. O responsável pelo posto resume que se trata de famílias jovens recém-chegadas à Zona de Cooperação, adultos que trabalham ou possuem negócios no Novo Bairro de Macau e portadores de BIR que escolheram Hengqin como local de residência na reforma.

Na unidade, a sinalética também está disponível em português, como nos centros de saúde em Macau (Foto: Ng Yuk Lin)
Na unidade, a sinalética também está disponível em português, como nos centros de saúde em Macau (Foto: Ng Yuk Lin)

A unidade assegura vacinação e exames de rotina para crianças; gestão de doenças crónicas comuns, como hipertensão e diabetes, sobretudo entre idosos; e tratamento de doenças agudas frequentes, como constipações, febres ou perturbações gastrointestinais. Sempre que necessário, são agendadas consultas de acompanhamento ou feitas referenciações, permitindo que a maioria das necessidades de cuidados primários de saúde seja resolvida dentro da própria comunidade.

Os cuidados básicos oferecidos pelo posto estão gradualmente a integrar-se na rotina dos portadores de BIR que vivem em Hengqin. O casal Tang – ambos naturais de Macau, reformados e a viverem no Novo Bairro há mais de um ano – contou à Revista Macau que é no posto de saúde que recebe a maioria dos tratamentos para pequenas enfermidades, assim como consultas de acompanhamento, evitando deslocações frequentes à RAEM. “Quando não nos sentimos bem, basta descer e somos atendidos, tal como em Macau”, diz o casal, destacando que os tempos de espera são significativamente curtos, o que agrada aos idosos.

Recordam que, no início, a variedade de medicamentos existentes na farmácia do posto era limitada, mas que, actualmente, esta apresenta já uma diversidade de fármacos mais semelhante à existente em Macau. Além disso, a unidade de saúde disponibiliza vacinas e exames básicos. O casal espera que, no futuro, “todos os serviços possam funcionar tal e qual” como na RAEM. Com uma maior integração das várias valências no âmbito dos cuidados de saúde, será possível eliminar deslocações à RAEM, tornando a vida na reforma mais prática, dizem.

Outra residente reformada, Wong Iok Wan, também já recorreu ao posto. A principal vantagem, diz, é o tempo de espera reduzido, “muito mais curto” do que nos centros de saúde em Macau, proporcionando maior conforto. Observa ainda que a estrutura passou recentemente a realizar colheitas de sangue, o que demonstra um reforço progressivo das capacidades da unidade, nota.

Wong Iok Wan espera que o posto amplie a disponibilidade de exames e os serviços de apoio ligados à gestão de doenças crónicas. “Que os serviços sejam mais completos… idealmente como em Macau”, afirma.

Expansão gradual

Nos primeiros meses, o posto de saúde não tinha capacidade para realizar exames laboratoriais. Tal levou a equipa médica a procurar soluções dentro do enquadramento legal existente. Segundo Wong Chi Peng, o transporte transfronteiriço de amostras biológicas – como sangue e urina – está sujeito a normas rigorosas. “Recolher aqui e enviar para Macau era difícil e, na prática, não era viável”, explica.

A solução passou por uma colaboração com a Filial de Hengqin do Hospital Afiliado n.º 1 da Universidade de Medicina de Guangzhou. Actualmente, as amostras são enviadas para essa unidade, que realiza as análises laboratoriais e devolve os resultados ao posto através de um sistema informático, permitindo ao médico avaliar e orientar o tratamento do utente em causa. Ainda assim, o objectivo a longo prazo é estabelecer um canal transfronteiriço para o transporte de bio-produtos entre a RAEM e a Zona de Cooperação, incluindo insulina, vacinas e amostras laboratoriais, possibilitando uma gestão mais flexível dos recursos entre Macau e Hengqin.

No campo da medicina preventiva, o posto tem vindo a introduzir gradualmente novos serviços, nomeadamente exames de saúde para mulheres e a administração da vacina da gripe. Como as inoculações utilizadas são produzidas no Interior da China, os profissionais explicam previamente aos utentes a sua origem e diferenças face às vacinas disponíveis nos centros de saúde em Macau, garantindo decisões informadas.

De resto, esse foi um dos grandes desafios: assegurar a disponibilização dos mesmos fármacos no posto de Hengqin em relação às unidades congéneres em Macau. A RAEM e o Interior da China possuem regulamentações distintas no que diz respeito à importação de medicamentos.

Segundo o médico Wong Chi Peng, desde o início que o objectivo para o posto de saúde foi o de “replicar o mais fielmente possível o modelo de Macau, incluindo a farmácia ocidental”. No entanto, o envio de fármacos da RAEM para Hengqin – considerado uma exportação para o Interior da China – requeria autorizações alfandegárias especializadas, bem como o aval das autoridades reguladoras competentes, sendo um processo complexo.

Com o apoio da Administração Nacional de Produtos Médicos e do regulador provincial de Guangdong, criou-se uma via facilitadora especial: Hengqin estabeleceu um catálogo de medicamentos de Macau, conhecido como “lista branca”, que reúne fármacos registados na RAEM que podem ser utilizados em instituições designadas na Zona de Cooperação. Em Abril de 2024, foram aprovados 296 medicamentos para inclusão na “lista branca”; em Agosto do ano passado, o catálogo foi ampliado com mais 249 fármacos, abrangendo tratamentos cardiovasculares, metabólicos, respiratórios e anti-infecciosos.

Wong Chi Peng explica que o posto recorre a uma empresa intermediária para adquirir medicamentos em Macau. Após verificação e autorização alfandegária, os produtos são enviados para Hengqin. Todo o processo é supervisionado pela autoridade reguladora farmacêutica, que, em conjunto com os departamentos relevantes da Zona de Cooperação, garante o controlo integral do ciclo de vida dos fármacos – desde a compra e transporte até ao armazenamento e dispensação –, assegurando rastreabilidade e segurança.

O médico adianta que está prevista a divulgação, durante a segunda metade de 2026, de uma terceira lista de medicamentos autorizados, o que vai reforçar ainda mais o acesso dos portadores de BIR da RAEM em Hengqin a tratamentos equivalentes aos de Macau.

A meta está reflectida nas Linhas de Acção Governativa para 2026, apresentadas em Novembro passado. Entre as medidas de “facilitação do acesso dos residentes de Macau aos cuidados de saúde” na Zona de Cooperação, é mencionada a promoção, “de forma faseada”, da utilização de mais medicamentos da RAEM no Posto de Saúde do Novo Bairro de Macau.

Rede de referenciação consolidada

Embora o posto ofereça essencialmente cuidados primários, sempre que um caso exige exames adicionais ou acompanhamento especializado, é feita a referenciação correspondente. Para seguimento especializado de rotina, o procedimento replica o dos centros de saúde em Macau: o médico emite uma carta de referenciação, marca a consulta e o utente desloca-se à RAEM para atendimento na unidade designada. “Fazemos as referenciações necessárias, porque é impossível tratar aqui todas as doenças; há casos que têm de ser acompanhados por especialistas”, afirma Wong Chi Peng.

Em emergências, o posto encaminha imediatamente o indivíduo para a Filial de Hengqin do Hospital Afiliado n.º 1 da Universidade de Medicina de Guangzhou. Depois de estabilizada a situação de saúde do paciente, e consoante a sua condição clínica e vontade, é decidido se o tratamento posterior será realizado em Macau.

Wong Chi Peng recorda um caso que marcou a equipa: um utente procurou o posto por dores de estômago. Durante a avaliação, o médico suspeitou de origem cardíaca e referenciou-o para exames urgentes no hospital parceiro em Hengqin. O diagnóstico confirmou um problema cardíaco que exigia tratamento imediato. “Mais tarde, ele voltou para nos agradecer”, conta.Para o médico, este episódio mostra que o posto não é apenas um serviço de atendimento para constipações ou pequenas enfermidades, mas um ponto essencial de triagem clínica, com a missão de “evitar falhas ou diagnósticos perdidos” e proteger a saúde dos portadores de BIR de Macau que estão em Hengqin.


O posto de saúde conta com 13 trabalhadores (Foto: Ng Yuk Lin)
O posto de saúde conta com 13 trabalhadores (Foto: Ng Yuk Lin)

Regime de exercício profissional transfronteiriço garante qualidade

Os médicos, enfermeiros e farmacêuticos do Posto de Saúde do Novo Bairro de Macau em Hengqin são destacados dos quadros dos Serviços de Saúde da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), mantendo a mesma estrutura de equipa existente nos centros de saúde na cidade. Actualmente, a unidade conta com 13 trabalhadores: sete provenientes de Macau – dois médicos, dois enfermeiros, dois farmacêuticos e um funcionário administrativo – e seis contratados no Interior da China, responsáveis pelas áreas da segurança, limpeza e apoio administrativo, garantindo todos, em conjunto, o funcionamento diário da estrutura.

Os profissionais de Macau destacados para a unidade devem cumprir simultaneamente os requisitos de acreditação da RAEM e do Interior da China. Para exercerem em Hengqin, precisam de concluir o processo previsto no “Regulamento sobre a gestão do exercício da profissão dos profissionais de saúde da RAEM na Zona de Cooperação Aprofundada entre Guangdong e Macau em Hengqin”, promulgado em Agosto de 2023, e obter o respectivo certificado de exercício da profissão.

Segundo explica o responsável pelo posto, Wong Chi Peng, mesmo possuindo qualificação profissional válida em Macau, os clínicos têm de ver as suas credenciais novamente verificadas por instituições médicas ou departamentos governamentais de Hengqin. “Só depois dessa confirmação é que podemos exercer aqui e prestar cuidados de saúde”, nota. Na sua opinião, este duplo mecanismo de verificação protege a segurança dos utentes e, ao mesmo tempo, cria uma base institucional para que os profissionais de Macau possam expandir a sua actividade para o resto da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau.


Filial de Hengqin do Hospital Afiliado n.º 1 da Universidade de Medicina de Guangzhou (Foto: Ng Yuk Lin)
Filial de Hengqin do Hospital Afiliado n.º 1 da Universidade de Medicina de Guangzhou (Foto: Ng Yuk Lin)

Consultas especializadas conjuntas: uma nova etapa da integração

Com o funcionamento do Posto de Saúde do Novo Bairro de Macau consolidado, a cooperação na área da saúde entre a Região Administrativa Especial de Macau (RAEM) e Hengqin avança para o campo das especialidades clínicas. No final de Outubro passado, foram lançados os serviços de consultas externas conjuntas entre os dois lados, uma iniciativa do Centro Hospitalar Conde de São Januário, na RAEM, e da Filial de Hengqin do Hospital Afiliado n.º 1 da Universidade de Medicina de Guangzhou. As primeiras especialidades disponíveis foram a pneumologia e a infecciologia, destinadas a utentes avaliados e referenciados pelas unidades de saúde de Macau.

Segundo uma nota dos Serviços de Saúde da RAEM aquando da inauguração dos serviços de consultas externas conjuntas entre Hengqin e Macau, o projecto permitirá reduzir os tempos de espera, optimizar a utilização de recursos e criar oportunidades de intercâmbio profissional. Para as autoridades da Zona de Cooperação, trata-se de uma medida que facilita a integração na região dos portadores de Bilhete de Identidade de Residente da RAEM.

O objectivo global é que, com o Posto de Saúde do Novo Bairro de Macau a assegurar cuidados primários e a clínica conjunta a avançar no campo das especialidades, a integração Macau-Hengqin na área da saúde avance para uma cadeia de cuidados contínua, coordenada e transfronteiriça.


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