Arquivos do Hospital Kiang Wu: uma página da memória nacional
Revista Macau
Edição nº 108
Os arquivos da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu incluem referências a Sun Yat-sen, que exerceu funções de médico na unidade hospitalar (Foto: Cheong Kam Ka)
Primeiro complexo de edifícios onde funcionou o Hospital Kiang Wu, fundado em 1871 (Foto: Direitos Reservados)
Vista do edifício de internamentos do Hospital Kiang Wu, datada de 1919 (Foto: Direitos Reservados)
Os registos internos mostram que o Hospital Kiang Wu recebeu um grande número de refugiados britânicos e americanos durante a Segunda Guerra Mundial (Foto: Direitos Reservados)
A escola de enfermagem associada ao Hospital Kiang Wu foi criada em 1923 (na imagem, uma aula em 1946) (Foto: Direitos Reservados)
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Parte dos arquivos históricos da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu está integrada, desde meados do ano passado, no Registo Nacional do Património Documental da China. Trata-se de uma colecção de 5400 documentos onde está reflectido não só o intercâmbio entre o Ocidente e o Oriente na área da medicina, mas também parte da própria evolução social na China
Texto Vitória Man Sok Wa
“Se queres prever o futuro, estuda o passado”, terá dito Confúcio aos seus discípulos há mais de 2500 anos, como registado na obra “Os Analectos”. Já então, a preservação da memória como forma de conhecimento era enfatizada pelo grande filósofo e pensador chinês. Um pulo no tempo de dois milénios e meio e uma guinada a sul e, em Macau, a Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu viu a importância dos seus arquivos históricos reconhecida a nível nacional.
Em Junho passado, a Administração Nacional de Arquivos incluiu os “Arquivos da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu (1857-1961)” no Registo Nacional do Património Documental da China, equivalente, a nível doméstico, ao programa “Registo da Memória do Mundo”, da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). Tratou‑se da primeira vez que património documental de Macau alcançou este tipo de reconhecimento nacional.
O acervo em causa, composto por cerca de 5400 documentos, inclui elementos únicos e de grande valor. O trabalho de preparação para a sua candidatura ao Registo Nacional do Património Documental demorou anos e foi levado a cabo pela Macau Documentation and Information Society e pelo Memory of the World Knowledge Centre da Universidade da Cidade de Macau, em conjunto com a própria Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu.
Os registos que compõem a colecção atravessam mais de um século, reflectindo não apenas a evolução da associação, mas também de valores como o humanismo e a solidariedade. Como recorda Helen H. K. Ieong, directora-executiva da Macau Documentation and Information Society, a Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu nunca se limitou apenas à gestão da unidade de saúde: desde cedo, o seu trabalho abrangeu também áreas como a educação, os serviços funerários e a participação em acções de ajuda ligadas ao Interior da China.
“Os arquivos do Kiang Wu não são apenas memória local. Revelam os valores universais do humanismo – na medicina, na educação, na solidariedade e no patriotismo. É isso que lhes confere força para serem reconhecidos”, sublinha Helen Ieong, também coordenadora do Memory of the World Knowledge Centre da Universidade da Cidade de Macau. “Com esta inscrição, o valor e o significado do acervo passam a ser reconhecidos oficialmente pelo Estado.”
Processo exigente
A especialista explica que a motivação da equipa para investigar o acervo histórico da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu e apresentar a candidatura ao Registo Nacional do Património Documental residiu no facto de o arquivo “beneficiar de uma base sólida, com os seus documentos organizados com rigor e preservados com grande cuidado”. O trabalho de avaliação, acrescenta, foi coordenado pela Administração Nacional de Arquivos, que reúne diversos especialistas, entre historiadores, arquivistas, documentalistas e académicos, que procederam à análise cuidada da colecção.
Primeiro complexo de edifícios onde funcionou o Hospital Kiang Wu, fundado em 1871 (Foto: Direitos Reservados)
Segundo Helen Ieong, o júri segue critérios exigentes. “O primeiro prende-se com a autenticidade” dos documentos, sublinha. “O segundo está ligado ao conteúdo e às razões da formação do arquivo, que devem assentar em fundamentos fiáveis e devidamente explicados.”
No caso dos arquivos da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu, nota a responsável, “a candidatura referiu‑se, naturalmente, a arquivos genuínos e com sólido respaldo histórico”. Segundo acrescenta Helen Ieong, “o ponto essencial a destacar era o seu significado mundial, ou seja, o valor que representam”.
A especialista continua: “Embora seja uma inscrição nacional, procurou‑se sempre destacar a sua dimensão universal – se os arquivos são únicos e insubstituíveis, se exerceram influência marcante, promoveram intercâmbios culturais ou tiveram impacto na história da humanidade. Esses efeitos, positivos ou negativos, devem ser descritos com rigor, pois é nessa clareza que reside a força do reconhecimento.”
O processo de recolha e avaliação dos registos históricos da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu foi extenso e marcado por uma ampla colaboração. “Durante anos, do lado da associação, estiveram funcionários administrativos, membros da direcção, o presidente do conselho e outros elementos da organização, sempre disponíveis para ajudar”, salienta Helen Ieong.
Ponte entre medicinas
Nos arquivos da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu, encontram‑se registos médicos, actas de reuniões, fotografias, correspondência e documentos especiais como epitáfios, placas comemorativas ou contratos. No que toca ao acervo integrado no Registo Nacional do Património Documental, este cobre o período de 1857 a 1961.
A colecção distingue‑se por testemunhar a introdução da medicina ocidental no contexto chinês pelo então médico Sun Yat-sen – que, mais tarde, se afirmaria também na esfera política, ficando conhecido como um grande revolucionário. O acervo detalha a criação de um dos primeiros modelos no mundo de consulta conjunta entre medicina chinesa e ocidental – um marco pioneiro na história global da saúde.
Neste contexto, o ano de 1892 é de particular relevância. Foi então que Sun Yat-sen – um dos primeiros médicos chineses formados pela Hong Kong College of Medicine for Chinese – chegou a Macau para exercer funções no Hospital Kiang Wu, introduzindo práticas de medicina ocidental no que era um hospital de medicina tradicional chinesa. O gesto inaugurou uma fusão entre dois sistemas de medicina – e culturais – distintos, tornando‑se símbolo de inovação e diálogo intercivilizacional.
“Estes documentos mostram como Sun Yat‑sen abriu caminho para a cooperação entre culturas médicas distintas. É um marco não só para Macau, mas para o mundo”, sublinha Helen Ieong.
Vista do edifício de internamentos do Hospital Kiang Wu, datada de 1919 (Foto: Direitos Reservados)
Nos seus escritos, Sun Yat‑sen registou a importância da prática médica que desenvolveu com apoio do Hospital Kiang Wu, lembrando que, ao contrário de Hong Kong – onde, por ser chinês, lhe era vedado o exercício da medicina ocidental –, em Macau encontrou abertura e apoio da comunidade, que valorizava o seu espírito de serviço. “Num tempo em que, em todo o país, não existia qualquer hospital que encorajasse de forma tão directa essa colaboração, este episódio tornou‑se prova de um intercâmbio cultural único, revelando como Macau foi palco de um movimento inovador de cooperação médica”, considera Helen Ieong.
Mais do que um hospital
O valor dos arquivos da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu não se limita à medicina. Um dos pontos considerados cruciais para a sua inclusão no Registo Nacional do Património Documental foi a forma como reflecte a evolução social ao nível da igualdade de género. Por exemplo, em 1923, sob tutela da associação, foi fundada uma escola de enfermagem aberta a estudantes do sexo feminino.
“Numa época marcada pela desigualdade entre homens e mulheres, a iniciativa destacou‑se por colocar as mulheres no centro, permitindo‑lhes ter acesso à educação muito antes de tal prática se tornar comum”, nota a especialista.
Desde cedo, a vertente educativa foi parte integrante do trabalho da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu. A organização estabeleceu em 1892 a Escola Livre de Kiang Wu, antecessora da actual Escola Keang Peng.
Os arquivos revelam também o papel humanitário da associação em momentos de conflito regional. Durante a Segunda Guerra Mundial, órfãos, refugiados e cidadãos sem recursos foram acolhidos pela organização, sem distinção de nacionalidade, testemunhando um espírito de solidariedade. Paralelamente, diversos documentos registam o envolvimento patriótico da associação: líderes como o empresário Ho Yin promoveram a educação cívica, apoiaram movimentos de resistência e colaboraram com redes clandestinas para resgatar intelectuais durante a ocupação de Hong Kong por tropas japonesas durante a Segunda Guerra Mundial.
Os registos internos mostram que o Hospital Kiang Wu recebeu um grande número de refugiados britânicos e americanos durante a Segunda Guerra Mundial (Foto: Direitos Reservados)
Helen Ieong diz que, ao longo do percurso de preparação da candidatura dos arquivos da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu, ficou claro para a equipa de investigadores que Macau guarda numerosos documentos de valor universal, muitas vezes subestimados ou ignorados. Esta experiência, afirma a responsável, reforçou a motivação da equipa para identificar outros acervos locais que não apenas reflictam acontecimentos históricos, mas constituam testemunhos essenciais para compreender o papel da cidade na memória colectiva global.
“Queremos que o mundo veja Macau não apenas como um ponto de encontro de culturas, mas como guardiã de memórias que pertencem à humanidade”, remata a especialista.
A escola de enfermagem associada ao Hospital Kiang Wu foi criada em 1923 (na imagem, uma aula em 1946) (Foto: Direitos Reservados)
Ao serviço da comunidade
Fundada em 1871, a Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu afirma‑se como uma das instituições mais emblemáticas de Macau na área da saúde, símbolo de filantropia e compromisso comunitário: é a mais antiga organização de beneficência não-confessional e não-governamental da cidade.
Sob a sua tutela encontram‑se actualmente o Hospital Kiang Wu, o Instituto de Enfermagem Kiang Wu de Macau e a Escola Keang Peng, instituição de ensino infantil, primário e secundário, além de serviços sociais como o columbário e a casa funerária do Hospital Kiang Wu.
Desde a sua fase inicial que o papel da associação se destacou. Os donativos a vítimas de calamidades naturais no Interior da China foram reconhecidos logo em 1893, pelo imperador Guangxu (1871-1908).
Durante a Segunda Guerra Mundial, a organização assumiu um papel de relevo: tratou feridos, apoiou refugiados e reforçou o seu espírito patriótico. Com a fundação da República Popular da China e, mais tarde, após a transferência de administração de Macau, entrou numa era de modernização progressiva, consolidando o Hospital Kiang Wu como uma das principais unidades de saúde da cidade.
Cidade repleta de arquivos de valor
Antes do reconhecimento nacional alcançado pelos arquivos da Associação de Beneficência do Hospital Kiang Wu, já outros acervos documentais locais haviam sido distinguidos, nomeadamente pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).
Em 2010, uma colecção de arquivos da Diocese de Macau foi integrada na vertente regional Ásia-Pacífico do programa Registo da Memória do Mundo, da UNESCO. Os documentos em causa, em português e latim, reportam-se à presença dos jesuítas em Macau entre meados de 1550 e 1800.
Em 2016, foi a vez de os “Arquivos e Manuscritos do Templo Kong Tac Lam de Macau (1645-1980)” obterem semelhante reconhecimento regional. Mais tarde, em 2023, foram incluídos na vertente mundial do programa Registo da Memória do Mundo. O templo alberga mais de 6000 documentos que abrangem materiais históricos de finais da dinastia Ming (1368-1644) e da dinastia Qing (1644-1912) até meados do século XX, demonstrando as contribuições do templo para a elevação do estatuto das mulheres, o desenvolvimento da sinização do budismo e a promoção da harmonia social.