Sanjo Iong: “Orgulho-me de ter conseguido criar uma marca, um design próprio e um negócio do qual possa viver”
Revista Macau
Edição nº 75
Lexx Moda
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Sanjo Iong
É a primeira e, de momento, a única designer local que faz dos sapatos imagem de marca. Sanjo Iong lançou-se no Reino Unido, mas decidiu sediar-se em Macau. Há 10 anos a crescer, o objectivo agora é afirmar a Lexx Moda na Grande Baía
Texto Catarina Brites Soares
Os sapatos sempre foram uma paixão. Do gosto ao negócio foi um passo, que Sanjo Iong diz ter sido natural. A experiência empresarial que já tinha e a formação em marketing, área em que se formou de 1991 a 1993, em Perth, na Austrália, ajudaram a dar o salto para criar a marca que haveria de ter os sapatos como protagonistas. Foi assim que nasceu a Lexx Moda, em 2002, na pequena cidade inglesa de Northampton. Hoje é a única designer mulher de Macau que tem o calçado como ramo de negócio.
“Adoro sapatos, como a maioria das mulheres. Tendo em conta que já tinha experiência, senti que havia mais oportunidades na área do calçado do que noutras vertentes da moda”, conta à MACAU, no terceiro andar da Galeria de Moda de Macau, na zona do Bairro de São Lázaro, onde estão expostas as colecções assinadas pela designer. Sanjo é uma das artistas locais que protagoniza a “História das Marcas 2020 – Exposição de Vestuário Original de Macau”, organizada pelo Governo [ver caixa].
Quando decidiu que queria montar um negócio, os sapatos foram a escolha mais óbvia uma vez que já tinha tido algum contacto com o ramo. Antes de criar a Lexx Moda, trabalhava noutra empresa que vendia produtos em pele, incluindo botas. “Tendo eu este interesse e conhecimento, achei que os sapatos seriam a aposta com mais sentido, e quando surgiu a oportunidade, investi”, realça a criadora, nascida em 1969.
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A empresa foi estabelecida em Macau, em 2003. Participou em várias exposições, começou a desenvolver o negócio enquanto marca de calçado feminino, e decidiu que as sandálias e sapatos rasos casuais seriam o enfoque. “O nosso design não se guia pelo que está na moda. Somos fiéis à nossa linha. Se está na moda plataformas ou saltos altos, não vamos começar a fazê-los por isso. A nossa especialidade são as sandálias e sapatos rasos. Percebi que o meu design se enquadrava mais neste tipo. Foi com esses modelos que encontrámos o nosso mercado”, realça.
Na última década, a Lexx Moda afirmou-se como marca de calçado feminino que se destaca pelo conceito e design. As linhas de produtos, como refere a Galeria de Moda de Macau, procuram reflectir uma identidade atendendo a cada estação, dadas a conhecer ao mercado através das principais exposições de calçado. O crescente reconhecimento reflecte-se também na cooperação que a designer afirma ter conseguido com grandes empresas de renome. A San Marina, em França, a Elisa Rivera, de Espanha, a Steve Madden, dos Estados Unidos, a Guja Srl, de Itália, e ainda a Wanted Shoes, australiana, a Pia Rennt, da Alemanha, a Rose Bud e Tomorrow Land do Japão, e a Giordano Ladies, de Hong Kong, são exemplos de nomes internacionais com quem tem trabalhado.
Com as criações, Sanjo Iong procura sempre conciliar um design apelativo com modelos práticos. O objectivo, resume, é que qualidade, estilo e conforto coexistam.
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O início
Em Northampton, Inglaterra, começou por importar produtos da China e vendê-los a designers locais que apreciava no Reino Unido. Já depois de criar a marca e voltar a Macau, e graças à rede que tinha criado na ilha britânica, começou a participar em feiras na Europa e a promover a linha já assinada por si. Os primeiros clientes eram fundamentalmente britânicos e franceses. O mercado cresceu e alargou-se ao Japão, Espanha, Itália e Hong Kong, territórios onde se centram as vendas actualmente.
A noção clara de quem é o cliente fiel ao produto foi facilitando o processo criativo, no início bem mais complicado, desabafa. “Agora que sei para quem crio e defini o estilo que quero produzir, é mais fácil ter ideias e desenhar os modelos.”
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A designer usa diferentes cores e padrões, e privilegia materiais naturais como o algodão, a pele e outros feitos a partir de plantas. Além da parte criativa, Sanjo faz questão de intervir também na parte da produção e das vendas, e de acompanhar todo o processo. Há dois anos alargou o espectro e começou a vender directamente ao consumidor em vez de se limitar a revendedores. As lojas, o site da marca e as redes sociais são os canais que usa para chegar ao público.
O contacto que já tinha tido com os fabricantes no Interior do País, através da antiga empresa de comércio, fez com que fosse mais fácil montar a rede de produção e de escoamento. “Quando já tenho a ideia, começamos a criar o design, depois fazemos o teste e, se resulta, seguimos então para o processo de produção e mais tarde o mercado”, resume à MACAU.
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Macau: a escolha certa
A marca surgiu no Reino Unido, mas foi em Macau que Sanjo Iong resolveu estabelecer-se. “Quando decidi levar o negócio para a frente, achei que a melhor forma de o desenvolver era aqui. Sou de Macau, nasci aqui, e tendo em conta que a fábrica é no Interior do País, achei que seria muito melhor ficar em Macau pela proximidade.”
O apoio do Governo e do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau (IPIM), acrescenta, também contribuíram para que decidisse fixar-se no território em vez de ir para o outro lado da fronteira. As oportunidades que as entidades governamentais criam para promover a marca, como o apoio na presença de eventos internacionais, foram argumentos que a convenceram. “É bastante fácil com todo o apoio do Governo. Podemos ir a vários locais. O IPIM tem uma grande rede de contactos e leva-nos a França, Las Vegas, entre outros destinos. Apesar de nem sempre serem mercados especializados ou que se dedicam só ao calçado, foi uma forma de ganhar experiência e contactos.”
Foi em 2001 que começou a ir a feiras europeias, por exemplo, no Reino Unido, França e Itália. “A ajuda do IPIM foi bastante importante no início. A presença em vários eventos contribuiu para que fosse percebendo como funcionavam os diversos mercados, o que permitiu que, nos últimos 10 anos, conseguíssemos promover a marca.”
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Com nome feito, quer agora retribuir e ajudar a promover Macau. “Podemos criar formas que contribuam e mudem a ideia que se tem de Macau, conhecida sobretudo por causa do jogo. Há designers locais muito bons com produtos que podem realmente representar Macau e criar uma nova imagem da cidade.”
A ideia de montar um negócio surgiu por sentir a necessidade de começar de novo e investir numa área diferente, ainda em Inglaterra, onde viveu quase 10 anos para acompanhar o filho que estudava no país. Agora que a marca já está em várias partes do mundo, como diz, orgulhosa, afirma que o grande objectivo é o Interior do País, onde abriu a primeira loja em Cantão, em Março. “O nosso foco principal é atingir mercados maiores, como o da Grande Baía e é isso que temos tentado fazer em conjunto com o Governo. Temos várias ideias e a ambição é levar a marca mais longe.”
Em Cantão, o par de sapatos varia entre os 300 e os 600 yuans, preços definidos tendo em conta a muita oferta no País e de forma a que fossem apelativos ao consumidor local.
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A meta é abrir uma segunda loja na região da Grande Baía com um propósito original. Mais importante do que o aumento das receitas, Sanjo Iong quer permitir aos clientes uma experiência original através das novas tecnologias. Com a ajuda da equipa de informática, os clientes vão poder escolher o material, a cor e o design, e assim criarem um modelo próprio.
A dimensão do mercado vizinho não assusta a designer, que reitera que “ambiciona mesmo muito” a expansão do negócio. Consciente da forte competição que existe, ressalva que “não é um problema deste ramo em específico”. “Acho que é uma vicissitude de qualquer negócio. Mas acredito que, quando se tem um estilo próprio, se acaba sempre por ter um mercado. A chave é ter um bom plano”, defende.
Sabe do que fala mas, com os pés assentes na terra, lembra que o sucesso se deve sobretudo a um factor: o trabalho. “Não somos apenas designers. O nosso trabalho não se esgota aí. Temos de pensar na produção, nos fornecedores, no design, nas vendas. Sinto-me muito mais segura porque monitorizo tudo. Desde o início até ao fim. Desde a ideia até à venda, o que evita muitos problemas. Quando se tem um negócio, é importante ter a percepção e contacto com todo o processo.”
A trabalhar consigo tem oito pessoas: três em Macau e cinco na sede em Cantão, além de trabalhadores sazonais que emprega conforme as necessidades na fábrica que tem na cidade.
Para promover a marca, viaja várias vezes ao ano. Só a Itália vai quatro, sobretudo a Milão, para marcar presença nos desfiles mais importantes das duas épocas do ano – Outono/Inverno e Primavera/Verão. “São as feiras mais importantes no Ocidente. É importante ir porque se percebe a reacção à marca, o que o nosso cliente quer, ficamos a conhecer melhor o mercado, o que se está a fazer e a acontecer no mundo. É uma rotina que procuro manter porque sinto que ajuda muito à afirmação da marca.”
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No ano passado, passou ainda por França, Japão e Hong Kong, onde marcou presença na “Hong Kong Centerstage 2019”, pela mão do Centro de Produtividade e Transferência de Tecnologia de Macau. Em Março, era suposto ter ido a Xangai, cidade determinante para cumprir o plano que traçou para o futuro. “Se queremos afirmar-nos no mercado chinês, Xangai é o sítio. Muitas das marcas mais importantes não falham a feira na cidade.”
As viagens e passagens por vários destinos são também importantes porque a inspiram, assim como Macau. “Sou chinesa, mas o nosso estilo de vida aqui é um pouco diferente daquele do Interior do País. Temos uma mistura de culturas e deparamo-nos com esse encontro com frequência. O ambiente é bastante diferente e inspira-me bastante, tendo em conta as experiências que a cidade me proporciona e através das quais me confronto com essa mistura cultural.”
Fora o tempo que dedica ao desporto, sobretudo ao jogging, e à família, a vida de Sanjo Iong é monopolizada pelo negócio. “Gosto muito de fazer sapatos. E há tanto para aprender, sobretudo quando gerimos o processo todo. Não sei se já terei atingido os todos os objectivos que tracei, mas orgulho-me de ter a minha marca, um design próprio e um negócio do qual possa viver.”
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Dar espaço às marcas locais
Com o objectivo de promover o desenvolvimento das indústrias culturais e criativas, e impulsionar as marcas de moda originais de Macau, o Governo tem organizado várias iniciativas como a que está a decorrer na Galeria de Moda de Macau – “História das Marcas 2020 – Exposição de Vestuário Original de Macau”. De acordo com a informação no site do Centro de Produtividade e de Transferência de Tecnologia, organizador da mostra, pretende-se que a Galeria, no Bairro de São Lázaro, seja um espaço de contacto e afirmação de marcas e estilistas locais. A Exposição terá cinco sessões, cada uma dedicada a uma marca: a Lexx Moda, Nega C., ZICS, FAITH & FEARLESS e NO.42. A Lexx Moda foi a protagonista da sessão inaugural do evento. O espaço inclui também uma zona de vendas. O Centro de Produtividade e de Transferência de Tecnologia é uma organização sem fins lucrativos, que junta o Governo de Macau e o sector privado. Tem como missão ajudar as empresas na promoção dos seus produtos e serviços. O objectivo, refere o site do organismo, é promover maior produtividade e competitividade das empresas.